O Poder das Plataformas Digitais
A última década marcou toda
a humanidade por disrupções tecnológicas massivas, exponenciais e transformadoras.
O smartphone, a internet de banda
larga, redes sociais e a economia do compartilhamento são alguns exemplos.
Outro exemplo que perpassa essas e outras inovações são as plataformas
digitais.
Esse vêm sendo um dos novos
padrões de dominação e de competitividade empresarial, contrapondo-se a visões
lineares, de pipeline, com
consumidores numa ponta e as empresas na outra. Empresas entrantes, com poucos
funcionários, conseguem perfomar em um ou dois anos de forma contundente,
tornando-se um dos players dominantes globalmente, justamente pela adoção da
estratégia de plataforma, modelo de negócios que "usa a tecnologia para conectar pessoas, organizações e recursos em um
ecossistema interativo, no qual podem ser criadas e trocadas quantidades
incríveis de valor" (PARKER, VAN ALSTYNE, CHOUDARY, 2016).
Essas pessoas devem ser produtores
e consumidores externos, que gerem valor em mão dupla, a partir da infraestrutura
da plataforma e da viabilização de circulação de bens e prestação de serviços
(comerciais e sociais), que, por sua vez, tem regras de negócios claras,
delineando os limites nessas relações.
A inovação deixa de ser
seara de especialistas e de laboratórios de P&D, resultando agora da
colaboração em massa e do compartilhamento de ideias propostas por
participantes independentes da plataforma, envolvidos numa governança e num
ambiente de comunidade vibrante e massivo.
O grande contraponto entre
as estratégias lineares e as de plataforma está no processo de geração de valor
que pode ser criado, modificado, trocado e consumido de diversas formas e em
diversos lugares, graças às conexões criadas e facilitadas por essa estratégia.
No sistema linear, o produto ou serviço é desenhado, construído/viabilizado,
oferecido e comprado. Ponto final.
Vamos a um exemplo mais "clássico".
A Amazon e seu e-reader Kindle
materializam uma plataforma que libertou escritores de editoras, proporcionando
que autores pudessem comercializar, ou mesmo disponibilizar gratuitamente, seus
trabalhos que serão alvo de manifestações do mercado fornecidas de maneira
automática pela comunidade de milhões de leitores, gerando reputações e
alavancando bons trabalhos e bons autores. Do outro lado, o linear, as firmas
tradicionais de pipeline estão
assentadas em editores, gerentes, vendedores, gráficas, livrarias, para
garantir a qualidade e seus ganhos. Na versão linear apenas cerca de 15% do
preço de capa é revertido aos escritores. Na versão plataforma, eles ficam com
cerca de 70%!
E o poder de crescimento de
redes é muito bem explicado pelo crescimento convexo, que seria o padrão de
crescimento das megaplataformas como Facebook, Apple, Microsoft e Uber, onde usuários
atraem mais usuários. E, estando convictos e percebendo valor, esses usuários
são retidos na plataforma.
Mas como construir uma estratégia
que estimule a participação e crie valor significativo para os usuários de uma
plataforma? Qual a infraestrutura necessária?
Uma interação básica é o
início de tudo, como uma troca essencial de valor, alinhada à missão da
plataforma. Com essa interação bem feita, cria-se uma base de crescimento tanto
de público quanto de outros tipos de interação.
A troca deve se basear em
uma unidade de valor (as relações profissionais no caso do Linkedin, a busca rápida
e fácil no caso do Google, levar música a qualquer parte das nossas vidas no
caso do Spotify e facilitação do e-commerce
no caso Mercado Livre). A partir dessa definição, há várias possibilidades de
povoamento e pareamento da plataforma, como, por exemplo:
ü geração
de reputação e feedback social,
ü estímulo
a um uso mínimo, gerador de fidelização, por meio de incentivos,
ü conexão
com redes externas, via API,
ü bons
algoritmos focados na capacidade de coletar dados ao longo do tempo e de usá-los
para tornar os sistemas mais inteligentes.
Em resumo, os efeitos de
rede dependem do seu tamanho, da sua amplitude e das condições
"digitais" (web, algoritmos, API, feedback social, dentre outros). A
estratégia deve prever e buscar uma expansão rápida e dinâmica, facilitando
interações mutuamente gratificantes para uma comunidade. Por outro lado, é
importante que haja espontaneidade para a própria rede propor o inesperado, incrementando
maneiras de criar valor na plataforma. Afinal de contas, voltando ao título
desse artigo, o poder das plataformas digitais reside justamente nesse ativo.

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